O grande crescimento industrial que a Marinha Grande assistiu ao nível da indústria vidreira, levou ao surgimento de aquilo que alguns historiadores chamaram, meio de autodefesa e participação socioeconómica, cultural e política, foi exercido através de um forte espírito associativo. Com o aparecimento de várias sociedades recreativas e algumas cooperativas de crédito ao consumo, em resumo estes fenómenos contribuíram grandemente para fortalecer a coesão do operariado Marinhense.
O Sindicato dos trabalhadores da indústria vidreira, tem as suas raízes em finais do século XIX, Através do aparecimento das associações de classe, a primeira destas Associações a ser criada, foi a associação de classe dos operários vidreiros em 1894. A classe operária vidreira evoluiu na sua organização durante e após a 1ª. Guerra mundial, havendo noticias do surgimento da Associação de Classe dos manipuladores de Vidraça em 1917, em 1919 a dos Garrafeiros e em 1924 uma dos cristaleiros e outra dos lapidários. A constituição de um sindicato único veio a ter lugar na Marinha Grande em 17 de Dezembro de 1931, tendo os seus estatutos sido aprovados oficialmente em 21 de Janeiro de 1932, com o nome de Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Industria do Vidro. Com a nova estrutura de pé, os trabalhadores vidreiros criaram uma forte organização na Marinha Grande, que lhe permitiu nesta terra, que, a nível do movimento operário do 18 de Janeiro de 1934, tivesse atingido as maiores dimensões a nível nacional.
Estava-se no início de 1934. Com o mudar do ano, entra em vigor o Estatuto Nacional do Trabalho, fascista, e os sindicatos livres eram oficialmente proibidos, dando origem a outros, subjugados ao poder corporativo. Por todo o País, os trabalhadores combatem a fascização dos sindicatos e convocam para 18 de Janeiro uma greve geral revolucionária, com o objectivo de derrubar o governo de Salazar. A insurreição falha, mas na Marinha Grande os operários vidreiros tomam o poder. Apenas por algumas horas, é certo, pois a repressão esmagaria a revolta. No resto do País, esperavam-se acções iguais, mas em nenhum outro lado se repetiu o gesto dos operários marinhenses. Apesar de fracassada, a revolta dos trabalhadores vidreiros fica na história como um momento alto da resistência ao fascismo. E deixou sementes, que germinaram numa manhã de Abril, precisamente quatro décadas depois.
Contrariamente ao que sucedeu nas restantes localidades no dia 18 de Janeiro de 1934, na Marinha Grande os objectivos da greve geral revolucionária foram cumpridos: os operários tomaram o poder. Cercada a vila e cortados os acessos, os trabalhadores marinhenses ocuparam os Correios e o posto da GNR. Derrotado o levantamento popular, começaram as perseguições e as capturas aos dirigentes sindicais, na sua maioria comunistas. Na noite de 18 e nos dias seguintes, varreram toda a região, casa a casa. Nem o Pinhal de Leiria ficou por varrer.
Os revoltosos da Marinha Grande, pelos alvos que haviam escolhido e pela natureza e gravidade dos seus actos, podem ter sido designados como o objecto de um castigo exemplar. Mas o facto de o movimento ter ficado confinado a uma minoria activa e o facto de, desde a primeira hora, a imprensa ter qualificado o movimento de comunista, qualidade que os próprios comunistas se apressam a reivindicar, é como se tivessem facilitado a escolha do Governo. O número de detidos na Marinha Grande teria ascendido no mínimo, a 131 pessoas:
- 49 Detidos - libertados posteriormente ao longo do mês de Janeiro por falta de provas
- 4 Detidos – libertados em meados de Março, atendendo à sua pouca idade e ao tempo de prisão já realizado.
- 45 Detidos, processados e condenados pelo Tribunal Militar Especial com penas pesadas, condenados ao desterro, com penas entre 3 e 14 anos de prisão na Fortaleza de São João Baptista em Angra do Heroísmo, e ao pagamento de pesadas multas.
- 33 Presos, dos quais não se encontrou referência à sua hipotética libertação ou julgamento.
57 Destes Presos, foram inaugurar o sinistro Campo da Morte Lenta, outros foram assassinados no Campo do Tarrafal e na prisão de Angra do Heroísmo. Alojados em tendas de lona que albergavam 12 prisioneiros cada, latrinas construídas com bidões de gasolina enterrados no solo, não tinham condições de higiene, água potável ou electricidade, e a alimentação era bastante deficiente. Um conjunto de factores responsável pela propagação de doenças como o paludismo. Eram ainda submetidos a tortura e a carcereiros cruéis, numa tentativa desumana de os aniquilarem física e psicologicamente, inviabilizando qualquer hipótese de fuga.
Um dos métodos de tortura era o da “frigideira”: pequeno compartimento em betão armado com uma porta de ferro, com arejamento mínimo, onde os prisioneiros eram colocados e deixados durante dias sujeitos a condições de temperatura extremas (do dia para a noite), praticamente sem água e comida (embora fossem servidas duas “refeições” por dia).
Os revolucionários do 18 de Janeiro foram derrotados num combate em que a heroicidade não bastava para vencer a enorme desigualdade de forças, mas, como muitas vezes aconteceu na história.

